10 março 2026

Faltam jardineiros e paisagistas


Sim, faltam jardineiros. Há uma escassez crescente de jardineiros e de bons paisagistas no Brasil. Este, porém, não é um problema exclusivo do nosso setor. Diversas áreas enfrentam hoje uma distorção semelhante na formação e na distribuição de profissionais qualificados — e a situação tende a se agravar.

 No setor da saúde, por exemplo, o Brasil conta atualmente com cerca de 600 mil médicos e 700 mil enfermeiros, uma proporção de aproximadamente 1,2 enfermeiro para cada médico. Com a expansão dos cursos de medicina e a abertura de novas faculdades, projeta-se que, até 2030, o país poderá ter mais médicos do que enfermeiros — um cenário que claramente não faz sentido do ponto de vista da estrutura do sistema de saúde. Para comparação, no Reino Unido há cerca de 7,2 enfermeiros por médico, e nos Estados Unidos a proporção é de 4,6 enfermeiros para cada médico.

 No paisagismo brasileiro, vivemos algo semelhante: um verdadeiro apagão de mão de obra quando se trata de jardineiros. E aqui vale destacar o termo sem aspas e com letra maiúscula — Jardineiros de verdade.

 Enquanto existem diversos cursos que formam “paisagistas” — alguns mais estruturados, outros bastante superficiais, com cargas horárias que variam de poucas horas a programas mais consistentes — praticamente não existem propostas sérias de formação voltadas especificamente para jardineiros.

Refiro-me a profissionais que vão muito além de simplesmente cortar grama. Jardineiros que saibam podar corretamente cada planta, respeitando sua forma e época adequada; que compreendam como preparar um canteiro; que conheçam o tamanho correto da cova para o plantio de um arbusto, de uma arvoreta ou de uma árvore; que saibam instalar tutores e realizar a manutenção adequada de cada planta e de cada jardim.

 Esses profissionais estão desaparecendo do mercado.

 Muitos se aposentaram, levando consigo um conhecimento acumulado ao longo de décadas — um saber prático que, infelizmente, não está sendo transmitido às novas gerações. Outros passaram por uma espécie de “requalificação” informal e passaram a se apresentar como paisagistas, sem necessariamente possuir a formação ou o conhecimento necessário para exercer essa função.

 Esse cenário representa um risco para todo o setor. De um lado, enfrentamos a escassez de mão de obra qualificada e experiente. De outro, vemos surgir profissionais que se apresentam como paisagistas sem a formação adequada e que, muitas vezes, sofrem do que a psicologia chama de ilusão do conhecimento.

 Esse fenômeno ocorre quando uma pessoa acredita compreender um assunto de forma muito mais profunda do que realmente compreende. O conceito é frequentemente confundido com o chamado Efeito Dunning-Kruger, mas existe uma diferença sutil: enquanto este se refere à incapacidade de reconhecer a própria incompetência em determinada habilidade, a ilusão do conhecimento está ligada à dificuldade de perceber que não entendemos plenamente os mecanismos de causa e efeito das coisas ao nosso redor.

 Talvez isso explique por que vemos poucos jardineiros ou paisagistas participando de cursos de formação e aperfeiçoamento. Quando alguém acredita que já sabe tudo, não vê motivo para aprender. No entanto, a realidade é justamente o contrário: nunca deixamos de aprender. Qualquer profissão exige atualização constante, curiosidade e disposição para evoluir.

 Se queremos que o setor de paisagismo continue crescendo com consistência e qualidade, precisaremos formar mais profissionais capacitados — tanto paisagistas quanto, especialmente, jardineiros.

 Caso contrário, poderemos chegar a uma situação paradoxal: ter mais paisagistas do que jardineiros.

 E para quem imagina que a inteligência artificial resolverá esse problema, vale lembrar: a IA não usa enxada para abrir uma cova nem pega a tesoura para realizar a poda correta de uma planta em um jardim.

 Se nada for feito, o mercado poderá acabar se resumindo a operadores de roçadeiras e podadores de buxinhos — enquanto seguirão faltando, cada vez mais, bons jardineiros.




Um comentário:

Anônimo disse...

Olá Jordi! Muito bem colocado este cenário caótico no setor de implantação e manutenção de jardins; parabéns!