29 dezembro 2025

O jardim do João Gomes

 Por Jordi Castan


Muito se falou sobre a casa do João Gomes em Recife. Arquitetos — e muitos que não o são — comentaram a eira, a beira, o alpendre, a escolha por uma arquitetura honesta, que não disfarça madeira com amadeirado, que tem cor, que utiliza o cobogó como solução de privacidade e conforto térmico que, ao primeiro olhar, se reconhece como casa — não como clínica, escritório ou consultório.

Mas até agora, curiosamente, quase ninguém falou sobre o jardim do João Gomes.

E é impossível imaginar que uma casa com tamanha coerência arquitetônica possa ser cercada por podocarpos, ciprestes ou mini fórnios, por buxinhos podados em bolinhas ou por monsteras sofrendo sob o sol inclemente do Recife. Um jardim desconectado do lugar seria uma contradição.

Se o João Gomes escolher o paisagista certo, seu jardim poderá ter angicos, ceibas e ipês-roxos. Poderá oferecer a sombra generosa dos coqueiros, o som da brisa passando pelas folhas do tataré, a paleta vibrante das bougainvilles e o perfume dos jasmins e das gardênias. Um jardim que dialogue com o clima, com o território e com a cultura.



Nas redes sociais, João Gomes sintetizou esse incômodo de forma direta e potente ao afirmar que “*não quer uma casa com cara de clínica*”, reforçando o desejo por um espaço que seja vivo, acolhedor e verdadeiro. Esse posicionamento, simples e sincero, ganhou enorme repercussão justamente por tocar em uma questão sensível e atual: a perda de identidade na arquitetura e, por consequência, no paisagismo.

O debate sobre paisagismo com identidade não é novo neste espaço. No entanto, a fala de João Gomes trouxe uma atualidade inesperada ao tema. Se não fosse um artista de tamanha visibilidade, provavelmente sua reflexão não teria alcançado tamanha repercussão — o que diz muito sobre como ainda resistimos a discutir esse assunto com a profundidade necessária.

É importante não confundir *identidade* com *regionalismo*, embora estejam intimamente relacionados. Arquitetura e paisagismo se inserem, inevitavelmente, em um território, em um clima, em um entorno natural e construído. Não há como separar esses elementos. Tampouco se deve confundir identidade com gosto pessoal.

Identidade é o que somos, individual e coletivamente. Não é fixa, não pode ser rotulada nem estereotipada. Ela se constrói a partir da cultura, dos saberes, da história e das características que nos tornam únicos. Sem identidade, tornamo-nos uma sociedade genérica, cercada por coisas que parecem, mas não são. A identidade é o que nos torna autênticos. 

O gosto é individual. Mas é lamentável perceber que a mediocridade tem se imposto como regra, inclusive em condomínios de alto padrão, onde a padronização do “não destoar” gera casas entediantes, arquitetura apática e paisagismo submisso a modelos rígidos de mediania. O resultado é uma monotonia monocromática, a repetição infinita de materiais genéricos, texturas previsíveis e plantas escolhidas mais pela moda do que pelo sentido. Um cenário que se afasta da liberdade criativa que projetou o Brasil — e seus arquitetos e paisagistas — como referência internacional.



Se essa tendência se consolidar, e se vozes como a de João Gomes deixarem de se manifestar, o futuro será pálido, triste e sem graça. Felizmente, ainda contamos com profissionais dispostos a nadar contra a corrente, projetando jardins diversos, ricos, coloridos e profundamente conectados ao lugar — jardins que atendem aos desejos de clientes exigentes e conscientes.

Para quem ainda não assistiu, vale conferir o depoimento completo de João Gomes sobre sua casa e suas escolhas:

👉 https://www.instagram.com/reels/DSIyqBSks3Q/

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