Por Jordi Castan
Muito se
falou sobre a casa do João Gomes em Recife. Arquitetos — e muitos que não o são
— comentaram a eira, a beira, o alpendre, a escolha por uma arquitetura
honesta, que não disfarça madeira com amadeirado, que tem cor, que utiliza o
cobogó como solução de privacidade e conforto térmico que, ao primeiro olhar,
se reconhece como casa — não como clínica, escritório ou consultório.
Mas até
agora, curiosamente, quase ninguém falou sobre o jardim do João Gomes.
E é
impossível imaginar que uma casa com tamanha coerência arquitetônica possa ser
cercada por podocarpos, ciprestes ou mini fórnios, por buxinhos podados em
bolinhas ou por monsteras sofrendo sob o sol inclemente do Recife. Um jardim
desconectado do lugar seria uma contradição.
Se o João
Gomes escolher o paisagista certo, seu jardim poderá ter angicos, ceibas e
ipês-roxos. Poderá oferecer a sombra generosa dos coqueiros, o som da brisa
passando pelas folhas do tataré, a paleta vibrante das bougainvilles e o
perfume dos jasmins e das gardênias. Um jardim que dialogue com o clima, com o
território e com a cultura.
Nas redes
sociais, João Gomes sintetizou esse incômodo de forma direta e potente ao
afirmar que “*não quer uma casa com cara de clínica*”, reforçando o desejo por
um espaço que seja vivo, acolhedor e verdadeiro. Esse posicionamento, simples e
sincero, ganhou enorme repercussão justamente por tocar em uma questão sensível
e atual: a perda de identidade na arquitetura e, por consequência, no
paisagismo.
O debate
sobre paisagismo com identidade não é novo neste espaço. No entanto, a fala de
João Gomes trouxe uma atualidade inesperada ao tema. Se não fosse um artista de
tamanha visibilidade, provavelmente sua reflexão não teria alcançado tamanha
repercussão — o que diz muito sobre como ainda resistimos a discutir esse
assunto com a profundidade necessária.
É
importante não confundir *identidade* com *regionalismo*, embora estejam
intimamente relacionados. Arquitetura e paisagismo se inserem, inevitavelmente,
em um território, em um clima, em um entorno natural e construído. Não há como
separar esses elementos. Tampouco se deve confundir identidade com gosto
pessoal.
Identidade
é o que somos, individual e coletivamente. Não é fixa, não pode ser rotulada
nem estereotipada. Ela se constrói a partir da cultura, dos saberes, da
história e das características que nos tornam únicos. Sem identidade,
tornamo-nos uma sociedade genérica, cercada por coisas que parecem, mas não
são. A identidade é o que nos torna autênticos.
O gosto é
individual. Mas é lamentável perceber que a mediocridade tem se imposto como
regra, inclusive em condomínios de alto padrão, onde a padronização do “não
destoar” gera casas entediantes, arquitetura apática e paisagismo submisso a
modelos rígidos de mediania. O resultado é uma monotonia monocromática, a
repetição infinita de materiais genéricos, texturas previsíveis e plantas
escolhidas mais pela moda do que pelo sentido. Um cenário que se afasta da
liberdade criativa que projetou o Brasil — e seus arquitetos e paisagistas —
como referência internacional.
Se essa
tendência se consolidar, e se vozes como a de João Gomes deixarem de se
manifestar, o futuro será pálido, triste e sem graça. Felizmente, ainda
contamos com profissionais dispostos a nadar contra a corrente, projetando
jardins diversos, ricos, coloridos e profundamente conectados ao lugar —
jardins que atendem aos desejos de clientes exigentes e conscientes.
Para quem
ainda não assistiu, vale conferir o depoimento completo de João Gomes sobre sua
casa e suas escolhas:
👉 https://www.instagram.com/reels/DSIyqBSks3Q/